Pronunciar a expressão 'eu te amo' parece um tanto quanto fácil para algumas pessoas. Mas, demonstrar amor, e viver intensamente o que o amor ocasiona, é para poucos. E sorte de quem tem um amor correspondido.
Amar consiste muito mais em expressar o sentimento através de atitudes, do que necessariamente falar. Pois, palavras sem ação são só um amontoado de sílabas sem sentido.
Num relacionamento amoroso, o cuidado com o outro é uma das formas mais bonitas de expressar em silêncio, o amor. Ligar para desejar bom dia, ou mesmo uma mensagem de 'Que seu dia seja maravilhoso' nos remete que, ao acordar, aquela pessoa pensou em você. Com o passar do tempo as coisas tendem a cair na rotina. Não concordo que a rotina seja ruim, desde que, vez ou outra, ela seja quebrada.
Se você ama alguém, é claro que é gostoso quando você diz que o ama. Mas é melhor ainda quando você liga pra ele só pra saber se a dor de ouvido melhorou, ou se ainda está com dor de cabeça por causa de stress. Dizer que ama é bom, mas já escutaram 'estou aqui pra o que você precisar' ?
Faz muito mais sentido quando nos sentimos amadas não só através de palavras, mas quando nos tornamos parte da vida de alguém.
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sábado, 9 de julho de 2016
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Certidão de Existência
Numa tarde de dezembro, João e Maria estavam aflitos no ponto de ônibus. Horário de pico, sol forte na cabeça, que já estava quente o suficiente com a história a ser resolvida. O tio avô de Maria falecera há pouco tempo, mas o inventário ainda não tinha sido aberto.
Na calçada escaldante do Bom Retiro, João pergunta à Maria:
- Como é, foi ao cartório?
-Fui sim. -Sussurrou a moça cabisbaixa.
-E daí, falou com o José sobre o inventário?
-Ele não estava, mas o Júlio me atendeu.
-E o que ele disse?
Nesse instante, os olhos de Maria denunciavam seu cansaço. O sol forte, o calor, parecia que tudo cooperava para aquela situação de frustração de quem está cansada de ir e vir de repartições públicas para provar o parentesco com o famoso dono de uma das maiores empresas agropecuárias do interior de São Paulo.
Angélica era sobrinha neta por parte de pai, que a abandonou ainda na barriga da mãe. Após o falecimento de D. Luíza, começou a investigar, já que se viu sozinha no mundo, quem seria seu pai ou qualquer parente ainda que distante. Menina pobre que morava na periferia de São Paulo, Maria era filha da empregada com quem o patrão teve um caso escondido, que faleceu meses após a descoberta da gravidez num acidente de carro, sem deixar outro herdeiro.
O cansaço de Maria não era só físico.
-Faltou minha Certidão de Nascimento, João, e eu tenho certeza que já levei pra lá!
-A Certidão? Então você terá que falar com a Rose, a moça com quem você deixou todos os documentos semana passada.
-O pior é que o Júlio me disse que acha que ela perdeu.
-E perdeu onde?
-Lá no cartório mesmo. Não há outra explicação João, quem roubaria uma Certidão de Nascimento?
O ônibus encostou no meio fio. Dava pra ver que o destino havia roubado o brilho nos olhos de Maria, mais do que isso, o destino roubou a infância de uma criança que precisou amadurecer pra cuidar do câncer da mãe desamparada pelo Estado. Roubou a adolescência de uma moça que precisou largar os estudos e trabalhar em casa de família seguindo os passos da mãe pra não passar fome. O ônibus chegou e a sua realidade conduzia sua vida rumo à favela.
Órfã, Maria tentava provar para o sistema que ela existia, mesmo ele fazendo questão de mostrar o contrário.
Na calçada escaldante do Bom Retiro, João pergunta à Maria:
- Como é, foi ao cartório?
-Fui sim. -Sussurrou a moça cabisbaixa.
-E daí, falou com o José sobre o inventário?
-Ele não estava, mas o Júlio me atendeu.
-E o que ele disse?
Nesse instante, os olhos de Maria denunciavam seu cansaço. O sol forte, o calor, parecia que tudo cooperava para aquela situação de frustração de quem está cansada de ir e vir de repartições públicas para provar o parentesco com o famoso dono de uma das maiores empresas agropecuárias do interior de São Paulo.
Angélica era sobrinha neta por parte de pai, que a abandonou ainda na barriga da mãe. Após o falecimento de D. Luíza, começou a investigar, já que se viu sozinha no mundo, quem seria seu pai ou qualquer parente ainda que distante. Menina pobre que morava na periferia de São Paulo, Maria era filha da empregada com quem o patrão teve um caso escondido, que faleceu meses após a descoberta da gravidez num acidente de carro, sem deixar outro herdeiro.
O cansaço de Maria não era só físico.
-Faltou minha Certidão de Nascimento, João, e eu tenho certeza que já levei pra lá!
-A Certidão? Então você terá que falar com a Rose, a moça com quem você deixou todos os documentos semana passada.
-O pior é que o Júlio me disse que acha que ela perdeu.
-E perdeu onde?
-Lá no cartório mesmo. Não há outra explicação João, quem roubaria uma Certidão de Nascimento?
O ônibus encostou no meio fio. Dava pra ver que o destino havia roubado o brilho nos olhos de Maria, mais do que isso, o destino roubou a infância de uma criança que precisou amadurecer pra cuidar do câncer da mãe desamparada pelo Estado. Roubou a adolescência de uma moça que precisou largar os estudos e trabalhar em casa de família seguindo os passos da mãe pra não passar fome. O ônibus chegou e a sua realidade conduzia sua vida rumo à favela.
Órfã, Maria tentava provar para o sistema que ela existia, mesmo ele fazendo questão de mostrar o contrário.
domingo, 15 de maio de 2016
Atenção, contém amor.
Encontramos rótulos em quase tudo na vida. Nas gôndolas de supermercado quando vemos a porcentagem de carboidratos em determinado alimento, em produtos de limpeza pra saber de algum componente que cause alergia.
O problema é que temos a prepotência de rotular sentimentos. E ao tentar enquadrar sentimentos aos rótulos impostos pela sociedade, diminuímos o que de maior existe em nós: a capacidade de amar.
O amor não é só uma palavra. Amar não é um verbo pra conjugar sozinho.
Por tantos outros motivos, me recuso a minimizar o amor num amontoado de palavras escritos num contrato social.
No amor, um não pertence ao outro por pressão, mas antes, se doam sem precisar que o outro peça. É como se ambos estivessem presos um ao outro através da liberdade que o próprio amor proporciona.
Dizer o que é certo e o que é errado só é válido aos que se amam e se relacionam, portanto, pressionar as pessoas para assinarem papéis para provarem à sociedade que têm um compromisso é o mesmo que comprar uma peça de roupa e deixar a etiqueta à mostra para dizer que ela lhe pertence.
E nem as pessoas, nem o amor são peças de roupa ou objeto pessoal para sequer pensar que possuímos.
Amar, consiste antes de tudo, em prezar pela felicidade e bem estar de quem amamos enquanto construímos um relacionamento sólido o suficiente pra suportar as tempestades que a vida proporciona.
O problema é que temos a prepotência de rotular sentimentos. E ao tentar enquadrar sentimentos aos rótulos impostos pela sociedade, diminuímos o que de maior existe em nós: a capacidade de amar.
O amor não é só uma palavra. Amar não é um verbo pra conjugar sozinho.
Por tantos outros motivos, me recuso a minimizar o amor num amontoado de palavras escritos num contrato social.
No amor, um não pertence ao outro por pressão, mas antes, se doam sem precisar que o outro peça. É como se ambos estivessem presos um ao outro através da liberdade que o próprio amor proporciona.
Dizer o que é certo e o que é errado só é válido aos que se amam e se relacionam, portanto, pressionar as pessoas para assinarem papéis para provarem à sociedade que têm um compromisso é o mesmo que comprar uma peça de roupa e deixar a etiqueta à mostra para dizer que ela lhe pertence.
E nem as pessoas, nem o amor são peças de roupa ou objeto pessoal para sequer pensar que possuímos.
Amar, consiste antes de tudo, em prezar pela felicidade e bem estar de quem amamos enquanto construímos um relacionamento sólido o suficiente pra suportar as tempestades que a vida proporciona.
quarta-feira, 23 de março de 2016
Eu não serei feliz quando começar a faculdade. Nem quando aprender a escrever melhor, ou a trabalhar com o que eu gosto.
Eu não serei feliz quando for morar sozinha, experimentar uma liberdade sonhada, ou quando conhecer Paraty.
Eu não serei feliz quando publicar meu primeiro livro. Nem quando tiver alguma menção sobre mim em algum veículo de comunicação importante.
Eu não serei feliz quando me casar, nem quando eu for mãe, nem quando eu puder observar meus netos com alguém do lado que eu olhe e sinta amor.
Não. Eu não serei feliz. Eu estarei feliz desde hoje. Com direito a dias tristes que é pra valorizar o sorriso. Eu já estou e sou feliz com o que sou e tenho hoje, porque sem dúvida, o hoje é a única coisa que tenho.
A vida é mais que um diploma, uma casa, ou poesias escritas para o vento. A vida é uma tarde de domingo na beira da praia em plena primavera. É a sombra de uma árvore que dá abrigo no verão. A vida, meu bem, é aquela canção em Dó que você tem prazer de tocar.
Eu não serei feliz quando for morar sozinha, experimentar uma liberdade sonhada, ou quando conhecer Paraty.
Eu não serei feliz quando publicar meu primeiro livro. Nem quando tiver alguma menção sobre mim em algum veículo de comunicação importante.
Eu não serei feliz quando me casar, nem quando eu for mãe, nem quando eu puder observar meus netos com alguém do lado que eu olhe e sinta amor.
Não. Eu não serei feliz. Eu estarei feliz desde hoje. Com direito a dias tristes que é pra valorizar o sorriso. Eu já estou e sou feliz com o que sou e tenho hoje, porque sem dúvida, o hoje é a única coisa que tenho.
A vida é mais que um diploma, uma casa, ou poesias escritas para o vento. A vida é uma tarde de domingo na beira da praia em plena primavera. É a sombra de uma árvore que dá abrigo no verão. A vida, meu bem, é aquela canção em Dó que você tem prazer de tocar.
A valsa das flores mortas
Cresci no campo aberto
Recebendo luz solar, e era certo
Que meu perfume permaneceria no ar.
No início, produzi folhas verdes
Alguns espinhos, algumas sementes
E um dia, de repente
Comecei a florescer.
Minhas pétalas queriam voar
Eu queria era dançar
Mas o meu corpo foi arrancado
Meus espinhos mutilados
Para alguém me comprar.
Fui embrulhada com papéis
Perto de mim um cartão
Com palavras sem sentido
Dizendo ser de coração.
Fui para um pequeno jarro
Achava que teria esperança
Que voltaria para a terra
Que até então virou lembrança.
Mas minhas pétalas murcharam
Foi tudo muito rápido
Meu cadáver no lixo jogaram
Pois cheirou mal e apodreceu.
Sou apenas mais uma rosa
Que dançou com excelência
A ganância do homem através
Da valsa das flores mortas.
Recebendo luz solar, e era certo
Que meu perfume permaneceria no ar.
No início, produzi folhas verdes
Alguns espinhos, algumas sementes
E um dia, de repente
Comecei a florescer.
Minhas pétalas queriam voar
Eu queria era dançar
Mas o meu corpo foi arrancado
Meus espinhos mutilados
Para alguém me comprar.
Fui embrulhada com papéis
Perto de mim um cartão
Com palavras sem sentido
Dizendo ser de coração.
Fui para um pequeno jarro
Achava que teria esperança
Que voltaria para a terra
Que até então virou lembrança.
Mas minhas pétalas murcharam
Foi tudo muito rápido
Meu cadáver no lixo jogaram
Pois cheirou mal e apodreceu.
Sou apenas mais uma rosa
Que dançou com excelência
A ganância do homem através
Da valsa das flores mortas.
Mulher?
(...)
Hoje eu acordei cedo pra preparar o café. Claro, antes que todos acordassem e fazendo o mínimo de ruído possível pra que meu esposo pudesse levantar disposto para trabalhar, afinal eu não trabalho fora.
Coloquei a água no fogo, fervi o leite e aproveitei pra lavar umas louças que estavam na pia do jantar de ontem. Quando tudo ficou pronto, fui até a padaria e comprei pães frescos e quentes.
O despertador tocou. Meu esposo se levantou e não viu seu uniforme em uma mesinha que eu havia acabado de passar. Enquanto tomava banho, peguei as peças e levei até o banheiro pra ele.
Meu filho mais velho, de 6 anos também se levantou para ir ao colégio. Minha filha, com 2 anos de idade, continua comigo. Minha companheira.
Os dois tomaram café. Ao saírem, aproveitei que Alice ainda dormia e lavei um tanque com roupa pra aproveitar o sol. Sabe como é, no verão sempre tem tempestades no fim da tarde e como lavo tudo na mão, nem secariam se eu deixasse pra mais tarde.
Fui pro quarto do meu filho. Organizei seu armário, limpei os móveis, o chão. Passei para o meu, Alice acordou. Ela é um doce, mas gosta de atenção. Brinquei um pouco, mas ela sempre insiste em querer mais. Já era hora do almoço, precisava fazer comida, afinal, eu não trabalho fora.
Desliguei as panelas e meu esposo chegou. Eu havia esquecido, ele não gosta de comida quente. Depois de uma manhã intensa no trabalho, acabou sendo rude comigo e ... bom, apanhei mais uma vez.
Dizem que o primeiro tapa a gente nunca esquece. Eu fingi que esqueci. Era um dia frio, e eu havia lavado um casaco dele e não secou a tempo pra ele trabalhar e eu entendo...ele estava nervoso.
Após ele almoçar, dormiu um pouco no sofá enquanto eu limpava a cozinha e enxugava minhas lágrimas. Eu tinha jurado que nunca mais apanharia. Seria o dia perfeito pra mudar de vida.
Alice puxou a barra do meu vestido. Pedro chegou da escola. Ambos, com sorrisos que aquecem minha alma toda vez que ela fica fria.
Eu deixei de estudar pra ser mãe. Larguei meu emprego quando engravidei. Não tenho casa própria. Meus pais faleceram e meus amigos...simplesmente dizem que gosto de apanhar.
Talvez quando crescerem. Talvez eu tome coragem de escapar. Mas agora?
Tenho roupas para passar, casa para limpar, e verbos para conjugar em segredo nos meus sonhos sobre a minha realidade.
Hoje eu acordei cedo pra preparar o café. Claro, antes que todos acordassem e fazendo o mínimo de ruído possível pra que meu esposo pudesse levantar disposto para trabalhar, afinal eu não trabalho fora.
Coloquei a água no fogo, fervi o leite e aproveitei pra lavar umas louças que estavam na pia do jantar de ontem. Quando tudo ficou pronto, fui até a padaria e comprei pães frescos e quentes.
O despertador tocou. Meu esposo se levantou e não viu seu uniforme em uma mesinha que eu havia acabado de passar. Enquanto tomava banho, peguei as peças e levei até o banheiro pra ele.
Meu filho mais velho, de 6 anos também se levantou para ir ao colégio. Minha filha, com 2 anos de idade, continua comigo. Minha companheira.
Os dois tomaram café. Ao saírem, aproveitei que Alice ainda dormia e lavei um tanque com roupa pra aproveitar o sol. Sabe como é, no verão sempre tem tempestades no fim da tarde e como lavo tudo na mão, nem secariam se eu deixasse pra mais tarde.
Fui pro quarto do meu filho. Organizei seu armário, limpei os móveis, o chão. Passei para o meu, Alice acordou. Ela é um doce, mas gosta de atenção. Brinquei um pouco, mas ela sempre insiste em querer mais. Já era hora do almoço, precisava fazer comida, afinal, eu não trabalho fora.
Desliguei as panelas e meu esposo chegou. Eu havia esquecido, ele não gosta de comida quente. Depois de uma manhã intensa no trabalho, acabou sendo rude comigo e ... bom, apanhei mais uma vez.
Dizem que o primeiro tapa a gente nunca esquece. Eu fingi que esqueci. Era um dia frio, e eu havia lavado um casaco dele e não secou a tempo pra ele trabalhar e eu entendo...ele estava nervoso.
Após ele almoçar, dormiu um pouco no sofá enquanto eu limpava a cozinha e enxugava minhas lágrimas. Eu tinha jurado que nunca mais apanharia. Seria o dia perfeito pra mudar de vida.
Alice puxou a barra do meu vestido. Pedro chegou da escola. Ambos, com sorrisos que aquecem minha alma toda vez que ela fica fria.
Eu deixei de estudar pra ser mãe. Larguei meu emprego quando engravidei. Não tenho casa própria. Meus pais faleceram e meus amigos...simplesmente dizem que gosto de apanhar.
Talvez quando crescerem. Talvez eu tome coragem de escapar. Mas agora?
Tenho roupas para passar, casa para limpar, e verbos para conjugar em segredo nos meus sonhos sobre a minha realidade.
O amor não é uma fotografia tirada por um Iphone. Está mais pra retratos improvisados que demoram um tempo até serem revelados.
Não é instantâneo, antes, precisa de sorrisos diários, tristezas esporádicas e um tanto bom de tesão pela vida, pois aquele que não consegue ser feliz consigo mesmo, também não conseguirá ser feliz com o outro.
O amor vive de companheirismo. Respira respeito, inspira compaixão, e nessa troca que fazem um com o outro é capaz de ascender cada vez mais tal chama que invade o peito e quer extravasar de tão grande.
O amor precisa, acima de tudo, de escolhas, e à partir do momento que escolhemos ver o outro bem sem esquecer do nosso próprio bem estar, é que a reciprocidade acontece.
Não é instantâneo, antes, precisa de sorrisos diários, tristezas esporádicas e um tanto bom de tesão pela vida, pois aquele que não consegue ser feliz consigo mesmo, também não conseguirá ser feliz com o outro.
O amor vive de companheirismo. Respira respeito, inspira compaixão, e nessa troca que fazem um com o outro é capaz de ascender cada vez mais tal chama que invade o peito e quer extravasar de tão grande.
O amor precisa, acima de tudo, de escolhas, e à partir do momento que escolhemos ver o outro bem sem esquecer do nosso próprio bem estar, é que a reciprocidade acontece.
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