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sábado, 9 de julho de 2016

(...) Marcou minha pele com tatuagem. Pintou seu nome e sua história, me olhava no espelho e via seu sorriso que invadia minha retina mesmo de olhos fechados. Mas um dia choveu e eu desprotegida, precisei sentir cada gota de água fria em minha pele. Só então percebi que essa chuva foi tirando aos poucos, a tinta vencida que você tentou me pintar.
Eu caminhei na beira da praia enquanto ouvia você cantar pra mim, e eu cantei pra você enquanto você bebia aquele vinho gelado que a gente tinha jurado guardar pra uma ocasião especial. Eu declamei minhas poesias, me despi do meu passado, mas você...
Você continuou a beber, e embriagou-se tanto de si mesmo que acabou esquecendo de mim.
Deixe-me ir!
Desate os nós que destruíram os laços 
Antes que desamarrem os cadarços
E eu caia na tentação de olhar para trás.
Deixe-me ir!
Entregue as cartas que te escrevi ao fogo
Antes que você me convença do quão bobo
É o movimento das lágrimas de solidão.
Deixe-me ir!
Antes que eu acorde novamente em teu peito
E não tenha em minha alma receio
De tropeçar em desilusões.
Deixe-me ir,
Ou convença-me a ficar em teus átrios,
Ouvindo minha canção favorita
Rindo da nossa não-despedida.

O dia em que descobri que te amava

Você me contava sobre seu trabalho
e como se sentia entediado
pensando no dia em que estivesse realizado.
Era primavera, e dizem que o perfume das rosas
só os que estão apaixonados conseguem sentir,
eu, sentia de longe, até o perfume de uma margarida
(se é que margarida tem cheiro)
À noite, eu via a lua tão cheia
e tão linda que me paralisava
quando tentava contar sobre a beleza dela
me diziam:
só os que amam apreciam o luar.
Não sei dizer ao certo a data em que descobri que te amo
mas posso dizer com segurança
comecei a te amar reparando no brilho da lua
achando o teu olhar mais bonito que ela
comecei a te amar sentindo o cheiro das rosas
e tendo a certeza de que teu perfume é o mais gostoso que senti
comecei a te amar quando ficou com dor de garganta
quando me faltou palavras pra descrever meu sentimento
continuo a te amar quando vejo um vídeo de idosos se declarando
e me imagino com você bem velhinho
rindo do passado que estamos construindo.
continuo a te amar ao querer envelhecer ao teu lado
e quando imagino um lar, doce lar, com você.

O amor e seus cuidados

Pronunciar a expressão 'eu te amo' parece um tanto quanto fácil para algumas pessoas. Mas, demonstrar amor, e viver intensamente o que o amor ocasiona, é para poucos. E sorte de quem tem um amor correspondido.
Amar consiste muito mais em expressar o sentimento através de atitudes, do que necessariamente falar. Pois, palavras sem ação são só um amontoado de sílabas sem sentido.
Num relacionamento amoroso, o cuidado com o outro é uma das formas mais bonitas de expressar em silêncio, o amor. Ligar para desejar bom dia, ou mesmo uma mensagem de 'Que seu dia seja maravilhoso' nos remete que, ao acordar, aquela pessoa pensou em você. Com o passar do tempo as coisas tendem a cair na rotina. Não concordo que a rotina seja ruim, desde que, vez ou outra, ela seja quebrada.
Se você ama alguém, é claro que é gostoso quando você diz que o ama. Mas é melhor ainda quando você liga pra ele só pra saber se a dor de ouvido melhorou, ou se ainda está com dor de cabeça por causa de stress. Dizer que ama é bom, mas já escutaram 'estou aqui pra o que você precisar' ?
Faz muito mais sentido quando nos sentimos amadas não só através de palavras, mas quando nos tornamos parte da vida de alguém.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Certidão de Existência

Numa tarde de dezembro, João e Maria estavam aflitos no ponto de ônibus. Horário de pico, sol forte na cabeça, que já estava quente o suficiente com a história a ser resolvida. O tio avô de Maria falecera há pouco tempo, mas o inventário ainda não tinha sido aberto.
Na calçada escaldante do Bom Retiro, João pergunta à Maria:
- Como é, foi ao cartório?
-Fui sim. -Sussurrou a moça cabisbaixa.
-E daí, falou com o José sobre o inventário?
-Ele não estava, mas o Júlio me atendeu.
-E o que ele disse?
Nesse instante, os olhos de Maria denunciavam seu cansaço. O sol forte, o calor, parecia que tudo cooperava para aquela situação de frustração de quem está cansada de ir e vir de repartições públicas para provar o parentesco com o famoso dono de uma das maiores empresas agropecuárias do interior de São Paulo.
Angélica era sobrinha neta por parte de pai, que a abandonou ainda na barriga da mãe. Após o falecimento de D. Luíza, começou a investigar, já que se viu sozinha no mundo, quem seria seu pai ou qualquer parente ainda que distante. Menina pobre que morava na periferia de São Paulo, Maria era filha da empregada com quem o patrão teve um caso escondido, que faleceu meses após a descoberta da gravidez num acidente de carro, sem deixar outro herdeiro.
O cansaço de Maria não era só físico.
-Faltou minha Certidão de Nascimento, João, e eu tenho certeza que já levei pra lá!
-A Certidão? Então você terá que falar com a Rose, a moça com quem você deixou todos os documentos semana passada.
-O pior é que o Júlio me disse que acha que ela perdeu.
-E perdeu onde?
-Lá no cartório mesmo. Não há outra explicação João, quem roubaria uma Certidão de Nascimento?
O ônibus encostou no meio fio. Dava pra ver que o destino havia roubado o brilho nos olhos de Maria, mais do que isso, o destino roubou a infância de uma criança que precisou amadurecer pra cuidar do câncer da mãe desamparada pelo Estado. Roubou a adolescência de uma moça que precisou largar os estudos e trabalhar em casa de família seguindo os passos da mãe pra não passar fome. O ônibus chegou e a sua realidade conduzia sua vida rumo à favela.
Órfã, Maria tentava provar para o sistema que ela existia, mesmo ele fazendo questão de mostrar o contrário.

domingo, 15 de maio de 2016

Atenção, contém amor.

Encontramos rótulos em quase tudo na vida. Nas gôndolas de supermercado quando vemos a porcentagem de carboidratos em determinado alimento, em produtos de limpeza pra saber de algum componente que cause alergia.
O problema é que temos a prepotência de rotular sentimentos. E ao tentar enquadrar sentimentos aos rótulos impostos pela sociedade, diminuímos o que de maior existe em nós: a capacidade de amar.
O amor não é só uma palavra. Amar não é um verbo pra conjugar sozinho.
Por tantos outros motivos, me recuso a minimizar o amor num amontoado de palavras escritos num contrato social.
No amor, um não pertence ao outro por pressão, mas antes, se doam sem precisar que o outro peça. É como se ambos estivessem presos um ao outro através da liberdade que o próprio amor proporciona.
Dizer o que é certo e o que é errado só é válido aos que se amam e se relacionam, portanto, pressionar as pessoas para assinarem papéis para provarem à sociedade que têm um compromisso é o mesmo que comprar uma peça de roupa e deixar a etiqueta à mostra para dizer que ela lhe pertence.
E nem as pessoas, nem o amor são peças de roupa ou objeto pessoal para sequer pensar que possuímos.
Amar, consiste antes de tudo, em prezar pela felicidade e bem estar de quem amamos enquanto construímos um relacionamento sólido o suficiente pra suportar as tempestades que a vida proporciona.